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Como você lidaria com a vida após o desaparecimento repentino de 2% da população mundial?

Fala galera renegada e – ainda não – arrebatada. Tudo de boa com vocês?

The Leftovers é uma das melhores coisas que vi ultimamente! Por quê? Ela lida com perdas, dores, melancolias, tristezas, indiferença e solidão de uma forma tão poética e belo como poucas obras audiovisuais trataram.

A pergunta que permeia The Leftovers é: ONDE EU ME ENCAIXO?

Como encontrar seu lugar em um mundo onde milhões de pessoas desapareceram misteriosamente? Como ter fé em uma sociedade que não consegue explicar a razão desse sumiço repentino dos nossos entes queridos?

No decorrer dos episódios, vemos uma sociedade quebrada. A ordem, a família, a rotina… Nada mais é o mesmo! Pessoas perderam outras pessoas para o inexplicável!

Não sei se acontece com vocês, mas eu não consigo lidar com algo que não tem explicação. Em toda a minha vida, nunca aceitei a falta de respostas. O acaso não é um dos meus melhores amigos. Agora imagine viver em uma sociedade que tenta encontrar razões para esse sumiço repentino de 2% da população e falha em cada tentativa… Não há mais comunidade porque a unidade se quebrou no fatídico dia 14 de Outubro, data do Desaparecimento.

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Aí você pode estar se indagando: “Então The Leftovers trata do Arrebatamento Cristão?”. Não. Obviamente que o viés religioso é tratado como uma possível explicação sobre o que aconteceu, mas não é a única. O termo ARREBATAMENTO raramente é usado durante toda a trama. A série não foca na razão do 14 de Outubro, mas sim em como as pessoas lidam com o desaparecimento de seus entes queridos. Algumas se punem; outras acham impossível lidar com a dor da partida; e outras ainda tentam seguir, mesmo sabendo que isso é impossível… Pelo menos por enquanto!

Em The Leftovers somos apresentados a alguns grupos que mostram como a sociedade está lidando com tudo isso. Somos então transportados à Mapleton, Nova York, uma pequena cidade que tenta seguir após três anos do Desaparecimento. Nela vemos a rotina do Chefe de Polícia Kevin Garvey, interpretado pelo ator Justin Theroux, e sua tentativa de ajudar a população de Mapleton a se recuperar da perda. No entanto Kevin tem dificuldade em lidar com esse mundo quebrado dentro de sua própria casa: seu pai, o então Chefe de Polícia em seu lugar, enlouqueceu, começou a ouvir vozes depois do 14 de Outubro e se internou no manicômio da cidade; seu filho Tommy (Chris Zylka) fugiu de casa em busca de uma fé que consiga explicar o Desaparecimento; sua filha caçula Jill (Margaret Qualley) é uma garota triste que tenta encontrar seu lugar nessa bagunça toda e sofre pela perda da mãe (Amy Brenneman) que não se foi junto com a população que desapareceu, mas que abriu mão de ser Laurie Garvey para se juntar aos Culpados Remanescentes, uma seita que surge após o 14 de Outubro com um único objetivo: ser um memorial vivo do que aconteceu. Uma família destroçada mesmo que nenhum deles tenha desaparecido; um retrato do mundo atual.

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Os Culpados Remanescentes são uma das coisas mais interessantes da série. Eles não falam, usam roupas brancas, fumam e são um constante – e incômodo – lembrete às pessoas de que é impossível viver depois do 14 de Outubro, É IMPOSSÍVEL ESQUECER! Eles cortam qualquer laço familiar e se juntam a estranhos com essa mesma incapacidade de seguir em frente e com essa dor latente na alma. No entanto, o que você acha que acontece quando existem pessoas que impedem as outras de prosseguir? Revolta, violência e uma forma de vomitar todos os demônios!

Uma simbologia muito legal desse lance de fumar sempre (a série é recheada de simbologias e teorias) e a todo o tempo é o contraste com a sociedade na qual vivemos hoje em que fumar é algo que prejudica sua vida e que você deve evitar fazê-lo para prolongar seus dias na Terra. No entanto, com os Remanescentes Culpados isso não acontece: eles fumam porque podem morrer a qualquer momento e porque, e principalmente, não se importam!

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Temos ainda outros núcleos também excelentemente trabalhados. Existe o Santo Wayne (Paterson Joseph), um homem foragido da Justiça que, misteriosamente após o 14 de Outubro, ganhou um dom de tirar as dores das pessoas simplesmente abraçando-as. Tommy é um de seus seguidores e, após a fuga de Wayne, tem a ordem de proteger Christine (Annie Q.), uma jovem oriental em meio a tantas existentes no harém de Wayne, pois ela gerará o filho do Santo.

E, por último mas não menos importante, temos Nora Durst (Carrie Coon), uma mulher que perdeu os dois filhos e o marido, desaparecidos no dia 14 de Outubro. A forma como ela lida com essa dor que a destrói é uma das coisas mais fodas da série. O episódio focado nela é um dos meus favoritos e vale uma indicação para o Emmy!

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Outra coisa excelente da série é a trilha sonora! De James Blake e sua melancólica “Retrograde” a uma versão instrumental linda de “Nothing Else Matters” do Metallica feita pelo Apocalyptica, a música se funde com as cenas e faz parte da história…E isso é FODA DEMAIS!

Criada por Damon Lindelof, o mesmo cara das perguntas não respondidas de LOST, e Tom Perrotta, o escritor do livro homônimo no qual a série se baseia, The Leftovers superou o medo alheio de que poderia vir a ser um novo LOST para o desespero dos mesmos fãs que anseiam até hoje por respostas que nunca acontecerão! Eu mesma fiquei descrente sobre a série ao ver o nome de Lindelof nos créditos, mas depois dessa primeira – e majestosa – temporada, tenho esperanças de que The Leftovers se torne uma obra que se tornará referência na TV!

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Damon Lindelof e Tom Perrotta

Recentemente, o livro de Perrota foi lançado no Brasil com o nome “Os Deixados Para Trás” pela editora Intrínseca e, logo depois da estreia da série, foi relançado com o nome original da obra – The Leftovers – e com a capa da série. Este livro com certeza está na minha lista prioritária de leitura!

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Admito que quando comecei a ver The Leftovers, abandonei no terceiro episódio. A série tem um clima lento, principalmente nos três primeiros capítulos. Mas do quarto em diante o ritmo se desenvolve com maestria e então fui arrebatada para dentro da história, me afeiçoei e me importei com os personagens; me entreguei. Com esse retorno à The Leftovers, percebi que essa não é uma série para todos os gostos. Se você não gosta de coisas “cabeçudas” demais ou acha que a série vai responder a pergunta: “O que exatamente aconteceu no dia 14 de Outubro?”, talvez agora não seja o momento de assisti-la. Ela foca nas pessoas, nas relações quebradas e nas dores que a perda causou a cada um dos personagens apresentados. No entanto, te aconselho que guarde essa história e em algum momento se envolva nela. Quando você estiver pronto para The Leftovers, a experiência será emocionante!

Essa nova série da HBO – emissora da qual sou fã declarada e cuspida – provou mais uma vez que a TV pode trazer obras que não sejam somente para entretenimento barato. A primeira temporada teve dez episódios e, mesmo que introdutória, se mostrou excelente quando o assunto é lidar com pessoas e suas dores mais profundas e ainda teve uma das cenas mais violentas e corajosas que eu já vi em qualquer obra audiovisual! Não faço a mínima ideia do que acontecerá na segunda temporada, mas já estou ansiando desesperadamente por ela!

E se você ainda está na dúvida se assiste ou não, a HBO Brasil disponibilizou o episódio online e legendado no seu canal do YouTube:

The Leftovers te faz refletir sobre como a perda pode ser dolorosa. Em como a vida não consegue seguir seu curso enquanto o desaparecimento repentino de outros e de si mesmo não for explicado. Pude perceber que a poesia e a melancolia são intrínsecas e estão mais presentes do que deixamos, ou queremos, transparecer. Como continuar quando tudo o que você crê te prende ao passado?

assrobs

  • Ok ok, quero assistir essa série JÁ :O ótimo review, resenha ou matéria em si hahahahah

  • CIDO

    Excelente serie, apesar de não dar para entender nada…Ainda assim é muito boa….fiquei com vontade de ler o livro também pra ver se entendo algo da historia e o que esperar da segunda temporada….Muito bom robs!!!!!