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SINOPSE

Étienne Davodeau é autor de HQ e não sabe muita coisa do mundo do vinho. Richard Leroy é vinicultor, quase nunca leu quadrinhos. Durante mais de um ano Étienne foi trabalhar nos vinhedos e na adega de Richard, que, em troca, mergulhou no mundo da HQ. Étienne Davodeau afirma que existem tantas maneiras de fazer um livro quantas de produzir vinho. Ele constata que ambos têm o poder, necessário e precioso, de aproximar os seres humanos. O livro oferece o relato alegre dessas iniciações.

Tradução de Monica Stahel.

RESENHA

Hey povo renegado, sussa?

Hoje a Estante Renegada é sobre uma história que poderia ser um livro, mas que, para a sorte dos apreciadores da nona parte (assim como eu), foi abordada em quadrinhos: Os Ignorantes.

Essa obra de Étienne Davodeau, responsável pelo roteiro e pelos desenhos, é a primeira obra do autor publicada no Brasil e veio pela editora WMF Martins Fontes, que tem trazido graphicnovels de destaque mundial para nossas prateleiras.

A trama mostra a experiência do próprio Davodeau que, ao trabalhar diretamente na produção dos vinhos de Richard Leroy – desde a poda, plantação, colheita das uvas à preparação dos vinhos nos barris até eles irem parar nas garrafas – e, em troca, ele ensinará ao vinicultor, que nunca teve qualquer contato com as histórias em quadrinhos mais artísticas, como a nona arte pode e vai muito mais além do que super-heróis e sungas por cima de collants.

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Étienne Davodeau e Richard Leroy

No início, achei a trama um pouco lenta, mas acredito que esse ritmo inicial seja proposital, pois vemos os primeiros contatos de ambos com novos conhecimentos que vão contra tudo que eles sabem: Leroy possui alguns dos melhores vinhos da França e é um conhecedor e degustador de primeira sendo até bem crítico quanto aos produtos de qualidade inferior, mas não entende, no começo, a arte que também está presente nas HQs; Já Davodeau é uma enciclopédia humana quando o assunto é quadrinhos, datas de publicação e tudo que envolve esse mundo, além de já ser um reconhecido autor e ter diversos contatos que facilitam o aprendizado de Leroy, mas não consegue enxergar os cuidados importantes que se deve ter com as vinhas desde seu início, sendo, a princípio, somente um expectador.

No entanto, podemos ver nascer, com muito cuidado tal qual acontece na vida real, uma amizade entre Leroy e Davodeau, os papéis deixam de ser somente de ora aluno, ora mestre. De personalidades tão díspares, vemos que o vinicultor e o quadrinista são mais parecidos do que parece: ambos têm um esmero enorme pelo que fazem, pois o fazem com amor!

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A partir daí os dois começam a entender e se abrir para essa troca de conhecimento. Leroy, que antes lia as graphicnovels com certa relutância e até dormia de cansaço por causa da rotina pesada do dia-a-dia no processo, começa a realmente gostar de alguns autores e traços, enxergando, finalmente, a arte existente neles e até se identifica com algumas histórias (mas chama Moebius de “Mozart e Jimi Hendrix ao mesmo tempo”, deixando claro que não gostou nada da arte do tão reconhecido artista francês, sendo esse um dos pontos mais engraçados da graphic novel). E vemos Davodeau se transformar em parte do processo, aprendendo como produzir garrafas de vinho pode ser também uma arte, tamanho o zelo, a atenção e o coração que se coloca nisso tudo.

Leroy e Davodeau se descobrem artistas e alunos com sede dessa iniciação e dessa troca!

A arte de Os Ignorantes tem sua base forte no nanquim. Com traço todo em preto e branco, realmente podemos focar nos diálogos e nas viagens que ambos fazem para ficarem ainda mais dentro da rotina intensa um do outro. Não há grandes traços técnicos ou extremamente elaborados: nessa graphic novel, o foco é a simplicidade que somente a rotina de fazer aquilo que se ama todos os dias, pode trazer.

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De feiras de degustação de vinhos a grandes festivais de quadrinhos franceses; vinicultores mundialmente famosos a editoras e gráficas, viajamos intensamente nessa história. O ritmo logo acelera e se estabelece como um dos pontos fortes da trama. Assim como um livro, Os Ignorantes deve ser lido aos poucos, sem pressa. É preciso se entregar e imergir nessa história que poderia muito bem ser contada no Cinema, no Teatro e até na própria Literatura, mas que foi colocada numa arte extremamente moderna e, aparentemente, tão distante dessa realidade. E é isso que torna essa obra ainda mais especial: a prova de que qualquer história pode ser colocada em quadros, basta ser feita com qualidade! (MAUS está aí para nos provar isso).

No final, percebi que Os Ignorantes é um grande banquete que, para ser verdadeiramente apreciado, deve ser degustados aos poucos, sem pressa, mas com toda a sede de conhecimento que o leitor possa ter. Afinal, se torna impossível não se apaixonar por vinhose HQs e enxerga-los como artes parecidíssimas com mestres tão talentosos como Étienne Davodeau e Richard Leroy que nos mostram que, no final, só é preciso coração para transformar qualquer ofício em Arte!

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