Vitrine_Post_CR_VEC

A estante de sua sala era de madeira e mantinha certo brilho devido ao verniz, tinha quatro fileiras cheias de livros com páginas amareladas e muitos deles inacabados, o cheiro de mofo surgia de forma até agradável, fazia apenas alguns meses que ele havia limpado tudo. Sua mesa de trabalho, ao lado da poltrona marrom que estava lá sem motivos, pois não tinha TV e nem recebia visitas, estava com quatro livros empilhados e um aberto, um caderno sem capa e uma caneta vermelha ao lado, além de uma pequena máquina de escrever sem folhas. Próximo a uma das paredes, havia uma pequena lousa com formulas escritas por uma mão trêmula, difíceis de entender até pelo mais exímio matemático. Seu diploma ainda permanecia pendurado na parede com um leve rachado no vidro, derrubado pela mãe na última vez que a vira. Na sala ainda próxima da janela aberta, havia um telescópio médio, que usava para suas pesquisas desde cedo. Sua paixão pelas estrelas, o universo e suas infinitas galáxias o levaram à vida acadêmica, tornando-se um renomado professor e um dos principais nomes da astronomia no país. Sua tese de doutorado estava finalmente concluída, só precisava defendê-la, um pouco prematuro devido a sua idade, embora aparentasse mais velho devido ao cigarro e a insônia. Não o assustava mais a verdade que encontrara, quando fazemos perguntas podemos não encontrar as respostas que esperamos, isso o assombrou quando começou a ter suas primeiras perguntas respondias, mas isso passou no decorrer dos anos. De certa forma sentia-se confortável, como um soldado que volta ao castelo e guarda sua espada após a árdua batalha, mas no caso dele, a batalha estava por vir. Colocou seu jaleco na poltrona e caminhou até a cozinha, com os pés descalços no piso frio, pegou uma das facas que estava no escorredor ainda molhadas, olhou seu reflexo através da lâmina, sua barba pra fazer e suas rugas, sentiu a primeira gota de sangue escorrer no primeiro corte, tinha que sentir o que descobrira, pois estava relacionado à vida. Começou a desenhar fórmulas, primeiro no braço estendendo-se ao peito, deltas e derivadas surgiam, em uma ordem sequencial, o sangue em seu corpo fluía como se fosse mais uma constante do cálculo, sentou no chão gelado, jogou a faca para frente, que fez um som agudo ao cair que ecoou pela cozinha, suas mãos sujas de sangue deslizando pela calça jeans deixando algumas manchas roxas, já tinha ido longe demais e sabia que não podia mais voltar atrás, era sua síntese que estava em jogo. Levantou-se sentindo uma leve tontura e voltou para a sala pegando a faca do chão, vestiu novamente o seu jaleco e abriu o pequeno cofre que ficava atrás do quadro onde estava o seu diploma, pegou um pequeno revolver que estava ao lado de muitas balas, carregou-a e enfiou entre sua cintura junto com a faca e mais balas em seu bolso, calçou uma meia e um sapato velho e saiu pela porta deixando-a aberta.

A arquitetura do prédio onde ficava a universidade era gótica, toda acinzentada com dois anjos melancólicos em sua fachada, tinha três andares e suas janelas eram escuras e minimalisticamente detalhadas. Em seu topo, estavam mais quatro arcanjos, um em cada extremo do prédio, com espadas em punho à espera do inimigo. Jovens entravam e saíam com livros na mão, garotas com vestidos com detalhes de bolinhas ou coraçõezinhos, cabelos longos com franjas e tranças que eram jogadas para frente reluzindo a luz do sol e os garotos uma boa parte deles com cabelos penteado para o lado com gel ou brilhantina, blusas de lã e alguns deles com jaquetas de couro barato, usando calças jeans ou com boca de sino e com sapatos raramente engraxados. Alguns o cumprimentavam enquanto ele entrava pela porta, mas ele não retribuía mantendo um andar apressado e inseguro. A mulher da recepção aproximou-se, usava um vestido negro e um chapéu com flores, andava com a mão esquerda sobre a barriga avantajada pela gravidez, ficou em seu caminho enquanto ele seguia para a escada logo à frente. – Ligaram pra você, professor! Anotei o número neste papel, pediram pra você retornar! Ele puxou levemente o jaleco empunhando o revolver de forma descoordenada e atirou sem mirar na mulher acertando seu braço. Todos em volta assustaram-se e logo deu um segundo tiro no segurança que vinha de trás sacando sua arma. Gritos de pânico começaram a surgir, mas logo alguns foram silenciados com os outros quatro tiros que ele disparou a esmo, carregou novamente a arma e começou a subir a escada deixando para trás a recepcionista ainda viva gritando de dor, além do segurança e duas jovens, todos mortos. A escada seguia em espiral, atirava em todos que surgiam e o rastro de sangue o acompanhava como a sombra de um dia prestes a acabar. –Vocês deviam me agradecer, ouviram? – gritou ao chegar no primeiro andar, acertou dois garotos pelas costas e deu de cara com um casal que descia a escada vindo do segundo. –Não! – gritou o garoto que era loiro e usava uma camisa de time de basquete, puxando a garota para trás de si impulsivamente. –Vocês não sabem o que eu sei, não faz sentido manter isso! – disse o homem andando em direção dos dois mirando a arma na testa do jovem.
-Por favor, não me mata! – disse a garota com uma voz chorosa e lágrimas repentinas molhando seus óculos. O tiro atravessou a testa do garoto, fazendo com que o sangue dele jorrasse no rosto e cabelos da jovem, terminando com mais dois tiros no peito dela, caindo ambos próximos um do outro em um abraço eterno. Suas balas estavam acabando e um alarme foi ligado, mas voz alguma saía das caixas de som presas na parede, não havia ninguém para dar algum tipo de orientação. Havia um silêncio no terceiro andar, sabia que eles estavam escondidos nas salas de aula, todas as portas estavam fechadas exceto uma, a do diretor que ficava no fim do corredor. Seus passos ecoavam pelo andar como o bater de asas do anjo da morte, queria um cigarro, mas já havia fumado todos antes de chegar, sua mão começava a tremer quando entrou na sala. – Pelo barulho lá fora, creio que nossa busca terminou, certo? – disse diretor com a poltrona virada de costas para a entrada.
-S…sim! – respondeu o homem. – Você sempre me ajudou a procurar a verdade através das estrelas, professor!
-Mas eu ainda preciso ter certeza, me mostre! – virou-se o diretor. Tinha os cabelos calvos e era branco, usava um terno que combinava com seus olhos amargos. O homem colocou a arma na mesa à sua frente e tirou o jaleco, exibindo suas fórmulas em sangue e sua faca ainda suja. O diretor aproximou-se, analisou cada elemento do cálculo enquanto o som de sirenes aumentava, olhou rapidamente para o mapa astronômico na parede de sua sala e para relógio que apontava meio dia, sentiu uma gota de suor descer pelo rosto e suspirou. –Está incompleto, assim não poderemos levar ao mundo nossa tese! – lamentou.
-Eu precisava compartilhar com você, professor! – disse o homem, puxando a faca de sua cintura. Afastou para o lado a gravata do diretor e abriu alguns botões de sua camisa cinza, escrevendo com a faca sobre a pele enrugada e flácida. As gotas de sangue do diretor começaram a descer e ele soltou um leve gemido. – Consegue ver agora, mestre? – disse o homem soltando a faca na mesa ao lado do copo de café vazio.
-Sim…agora eu vejo, esplêndido! Perfeito! Nós conseguimos!
-Sim, nós conseguimos! – sorriu o homem com felicidade de gratidão. – Você já sabe o que fazer!
-Eu sei! – o diretor pegou a arma em sua mesa, atirando duas vezes no homem, que caiu sem vida no carpete árabe de sua sala. Ouviam-se passos subindo as escadas, sentia a adrenalina subir rapidamente e enfiou o cano ainda quente da arma e sua boca, disparando sua última bala. Os policiais entraram na sala e baixaram suas armas quando viram os dois, um caído e o outro sentado com a cabeça tombada para o lado com a arma caída no chão próximo ao seu pé direito. Não havia nada a ser feito além de chorar pelos inocentes e aceitar a verdade diante de seus olhos.

ASSBRANCO2

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  • Caramba, os textos do Branco são sempre sensacionais. Fico impressionado como a forma como os locais e as pessoas são descritas. É algo bem mais que visual. Todos os sentidos são trabalhados de uma forma única…eu não só vejo aquele sangue, eu sinto o calor do sangue, o gelado da faca, sinto o cheiro do lugar, ouço o barulho da faca caindo no chão e da arma sendo carregada. Outro ponto é o poder de sintetizar muita informação em poucas palavras, como em “havia uma pequena lousa com formulas escritas por uma mão trêmula”. Cara, genial! Nessas palavras já me vem uma séria de suposições e imagens. Parabéns mesmo!

    • Concordo em numero gênero e grau Arieira, se tem algo que eu invejo na escrita do Branco são suas discrições precisas, realmente é impossível não criar todo o ambiente com riqueza de detalhes na sua mente. E realmente provocar os sentidos como olfato e o tato somente com a escrita merecem meus sinceros aplausos, adorei esse conto. Morrendo de curiosidade pra saber do que se tratava a fórmula apesar de ter lá meu palpite 🙂

  • Poxa, obrigado!!!

    Ler elogios de caras como vocês só fazem eu querer escrever mais!!!!

  • Alias, tem Easter Egg do conto anterior hahahah

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