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O céu acinzentado ao fim da tarde começava a escurecer quando o carro aproximava-se da casa, levantando uma poeira densa pela rua de terra. Não havia vizinhos nem pessoas caminhando, a última casa que Cecília notou ficava a dois quilômetros, apesar de não ter olhado muito para fora. Mantinha seu rosto cabisbaixo e os músculos de seu pescoço rígidos, como uma presa prestes a receber o primeiro bote do predador, se seria na jugular ou em algum dos seus membros. Em sua mente, via imagens de si jogando-se em cima do volante de Ivan, fazendo o carro bater e fugindo sem olhar para trás, com o corpo dele ensanguentado nas ferragens, mas o silêncio imperante no carro a oprimia, o que a fazia achar que ele estaria preparado para este tipo de atitude, e que também não teria forças suficientes para enfrentá-lo.

O carro parou em frente à casa, era cercada por arame farpado enferrujado, alguns fios entrelaçados, como se alguém tivesse invadido. Ivan saiu do carro, deu a volta, sempre de olho em algum movimento dela e abriu a porta do passageiro. –Vai! Vai! – ordenou pegando ela pelo braço, o primeiro bote. Abriu a portinhola de madeira, e seguiu pelo quintal, com alguns montes de terra em torno dele, Cecília começou a chorar enquanto ele apertava cada vez mais seu braço, olhando para os montes e para a pá que ficava ao lado da porta, inerte. A casa tinha as janelas fechadas com cortinas negras, quatro degraus de acesso a uma pequena sacada antes da porta, as paredes eram cinza com alguns pedaços rachados pelo tempo e potes com plantas secas abandonadas sem um último adeus. Cecília caiu antes de chegar ao primeiro degrau, deslizando suas mãos sujando suas unhas com terra. – Levanta, vadia! – gritou Ivan puxando seu braço com força. Ela apoiou-se na perna direita, com seu jeans sujo de terra nos joelhos, deu mais dois passos descompassados, como se estivesse embriagada enquanto ele a arrastava seguindo para a porta. Podia notar as marcas dos dedos grossos de Ivan em seu braço, vergões avermelhados que permeavam sua pele como se fossem estigmas.

Por dentro da casa, os moveis estavam todos cobertos por mantas brancas encardidas, um quadro preto e branco com detalhes arcaicos em cada um dos seus cantos estava pendurado na parede, com a foto de um casal e seus filhos, duas crianças, o homem com cabelos penteados para trás e usando bigode, usando um terno e abraçando a mulher, com um vestido negro além de um chapéu com flores mortas, tinha olhos claros e vazios que olhavam para o nada. As duas crianças estavam na frente dos dois, o garoto com os olhos da mãe, tinha o cabelo loiro penteado para o lado e usando suspensório com uma camisa branca, e a irmã com vestido de rendas, com bordado de lírios em volta das mangas e feição de afeto olhando para o irmão. O piso era de madeira velha, há muito tempo ali e um cheiro de esquecimento pairava sobre o ambiente, sabe-se lá quanto tempo alguém não entrava naquela casa. Ivan abriu um pequeno compartimento no chão no corredor que ligava a sala de estar à cozinha. Cecília começou a gritar, havia uma escada cujos degraus desapareciam conforme a escuridão do porão surgia, como se não tivesse fim. –Desce, foi você que quis estar aqui! – disse Ivan dando um tapa no rosto da garota, fazendo-a bater a cabeça na parede e cair no chão, desacordada. Ele a levanta novamente pelos cabelos e a pega pelos braços, descendo pela escada.

A luz intermitente acende-se quando ele aperta o interruptor, sabia onde estava através do tato, caminha pelo porão, que não tinha nada além de algumas caixas com ferramentas no chão e vasilhames com garrafas vazias de whisky barato. Um som vinha do fundo do porão que podia ecoar pela casa toda, provavelmente ratos. Uma mesa empoeirada e uma cadeira caída. Ivan deixou Cecília na cadeira, encostando ela na parede, o rosto dela inclinado para baixo, vergões no rosto e olhos fechados, ainda úmidos pelas lágrimas. Ivan subiu correndo pela pequena escada, seus passos mantiveram o mesmo ritmo até sair novamente da casa.

Após um tempo, ela abriu os olhos, mas voltou logo a fechá-los para que ele não percebesse. Notou um laptop ligado em cima da mesa e duas garrafas de whisky, uma delas quase no fim e a outra vazia. Não havia copos, o que deu a entender que ele bebia direto da garrafa. Ele inseriu um disco no computador, estava de costas para ela enquanto dava para ver a imagem na tela. –Está conseguindo ver? – disse Ivan para alguém que não era ela. Sentia seus braços presos no apoio das costas da cadeira, mas suas pernas estavam livres. Talvez a bebedeira o tenha feito esquecer de amarrar o resto, pois havia mais uma corda no chão. –Estou sim, bem que você disse que ela era bonita, irmão! – disse uma voz feminina vinda do laptop.
-A Silvia está dormindo já?
-Sim, dormiu com o caderno de desenhos dela, ela sempre faz isso! – Cecília podia ver a imagem da mulher, estava de camisola branca, sua boca era semelhante a de Ivan, assim como sua cor de pele, embora a imagem da tela a deixasse mais escura. Seus cabelos eram longos e repicados, caindo sobre seu pescoço. – Da próxima vez, quero estar junto, pra gente transar depois de terminar, igual daquela vez!
-Faço isso por você, minha amada! – disse Ivan. –O seu prazer é o meu prazer, o seu sangue é o meu sangue!
-É mesmo? –respondeu a mulher sentindo-se excitada.
-Sim, é isso que nos une, desde tão cedo, você sempre me protegeu pra que eu não ficasse sozinho, que quando alguém tentasse me abandonar, seria a sua vez de ter sua sede saciada.
-Chega perto dela! – respondeu ela descendo sua mão esquerda por entre as pernas, levantando a camisola. Ivan caminhou lentamente com uma faca e a corda que acabou de pegar do chão, enrolando em seu punho. Aproximou-se de Cecília, que pôde sentir o cheiro de álcool e suor misturando em um único odor azedo e decadente. Ele deslizava a faca pelo seu pescoço enquanto gemidos começavam a surgir do laptop, Cecília pôde brevemente abrir os olhos sem ele perceber e viu a mulher na tela com as pernas abertas introduzindo sua mão no meio delas, mexendo lentamente.
– Acorda, olha o que tem pra você! – disse Ivan eu seu ouvido, com a faca descendo pelos seus seios.
Ela podia sentir quão gélida era a sua lâmina, sem vida.
– Era para as coisas serem diferentes, mas sempre acabam assim! Sempre! – disse Ivan.
Ela avançou bruscamente e mordeu forte o pescoço de Ivan, colocando uma das pernas atrás do seu corpo em um último esforço de desespero jogando todo seu peso em cima dele, para desequilibrá-lo e ambos caírem escapando a faca das mãos dele. Cecília sentiu a cadeira quebrar-se na parte de trás quando caiu ao lado de Ivan, na parte onde estava amarrada, podendo rapidamente soltar as mãos. Ela tentou conter Ivan apertando sua mão no pescoço dele enquanto ela soltava a outra ainda entrelaçada entre a cadeira e a corda. Ivan revidou com um soco que a fez cair para a esquerda, soltando a outra mão. Cecília podia ouvir os gemidos vindos do laptop ficando mais altos, em êxtase, à medida que não conseguia enxergar bem devido ao soco, sentiu a faca ao bater com a mão e logo a pegou firme, sentiu que o vulto ao seu lado vinha descontrolado, o pânico natural que ocorre quando a presa está prestes a fugir, e cravou a faca em seu abdômen, era possível sentir a maciez da carne e o pulsar do sangue ao esguichar, Cecília puxou de volta quando ele caiu trêmulo, e deu mais incontáveis golpes com os olhos fechados, o sangue escorrendo pelo chão empoeirado e a mulher na tela finalmente soltando um último gemido de orgasmo e desligando a tela.

Cecília jogou a faca que se perdeu na escuridão e sentou, começando a chorar um choro não de tristeza, mas de indignação aliada a um pouco de alívio, sabia que não tinha acabado como a garota do vídeo que viu no carro e sabia também que não havia mais nada a temer, permaneceu por cerca de vinte minutos observando o corpo sem vida de Ivan, até levantar-se e subir as escadas. Seguiu correndo pela rua, era difícil correr devido as pernas trêmulas, suas roupas todas ensanguentadas, sem noção de direção e de o que diria se realmente encontrasse alguém. Mas teriam que acreditar nela.

A enfermeira caminhava pelo piso branco e antisséptico do hospital psiquiátrico, passando por outras que acompanhavam seus pacientes, sendo garotos calados ou garotas histéricas segurando suas bonecas. Havia enfeites em todas as paredes pintadas de rosa, com ursos, jacarés, tigres, cães e gatos de cartolina sorrindo esperançosos, as luzes estavam ligadas apesar do clarão do dia que penetrava pelas janelas abertas. Ela abriu a porta do quarto, onde estava a doutora em pé, que segurava uma prancheta e observava Silvia, deitada no leito com uma caixa de giz de cera ao seu lado e compenetrada em seu caderno. A doutora era loira e de meia idade, com lábios finos e algumas rugas perto dos olhos escuros. Havia uma bandeja com um copo de achocolatado que acabara de esfriar, dois pães de leite e um pouco de geleia. O quarto tinha a janela aberta assim como o resto do hospital e alguns corações de cartolina espalhados pelas paredes.
– Trouxe o remédio aqui, ela chegou ontem, não foi? – perguntou a enfermeira em voz baixa, segurando os comprimidos em sua mão morena e gorda.
-Sim! Coisa horrível, você não viu na TV? Os pais matavam mulheres em uma casa não sei onde, parece que uma matou o homem, fugiu e chamou a polícia! Chegaram no flagra quando a mãe tentava fugir com ela no carro, a mãe sabia de tudo! Acho que a mulher que matou nem ficará presa, estão alegando legítima defesa! E quanto a ela, não diz uma palavra, não esboça nenhuma atitude, a única coisa que faz é desenhar, estamos fazendo mais exames, parece que está em outro mundo! – A enfermeira aproximou-se do leito, com um copo de água que acabara de pegar e olhou bem nos olhos claros de Silvia, que terminava seu desenho e escrevia um nome, assim como em todos os outros que fazia. Eram nomes femininos.

ASSBRANCO2

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  • Um dia vou descrever cenas como você hahaha muito foda!

  • Coitado de mim hauhauahuahauha

  • Kakashi

    Interessante… Silvia +desenhos= a nomes!Ja estou presumindo… rsss! Good job man.